Como se destacar como delegado
- jucomarins
- 14 de out. de 2020
- 9 min de leitura
‘É o delegado que faz a delegação, não a delegação que faz o delegado’ , diz Manuela, Diretora da LEA.
A XV ONU colegial é o tradicional evento de simulação diplomática das Nações Unidas do Colégio Santo Inácio. Há mais de uma década os delegados têm a oportunidade de vivenciar uma aproximação com a realidade vivida nos debates da verdadeira ONU, representando chefes de estado de diversas localidades em comitês extremamente variados que tratam sobre assuntos bastante atuais e muito relevantes para os dias de hoje.
Em uma entrevista para a Imprensa da ONU colegial, alguns diretores e secretários falaram sobre suas experiências e anseios para esta ONU tão atípica, que acontecerá virtualmente devido a pandemia do COVID-19. Os entrevistados forneceram também diversas dicas para facilitar e ajudar no funcionamento dos debates entre delegados dos mais variados comitês.

Confira abaixo os resultados da entrevista:
1- Quais as melhores qualidades em um delegado? Por quê você considera elas como sendo boas qualidades?
Saber ouvir e falar, além de aceitar opiniões distintas e defender seu ponto de vista, tornando o debate produtivo, com essas qualidades, o delegado ‘consegue liderar o comitê em tempos de debate ou perda de foco’, enfatizou a Diretora da LEA, Klara Souza. É importante ler, pesquisar e se interessar por tudo nas sessões. ‘Falar é essencial, mas é claro que apenas o importante’, brincou a Diretora do CSH, Alice Pavlova. A ‘busca pelo conhecimento e a vontade de participar devem ser constantes’. Como diz o Diretor da LEA, Pedro Henrique Faria, é ‘necessário entender o tema para poder tomar decisões plausíveis, se mostrando sempre presente na sessão’. Anseie agir sempre com seriedade, empatia e calma, mantendo-se paciente e proativo, ‘independente das opiniões diferentes é preciso ouvir o outro e buscar uma síntese, não apenas debater’ como ressalta a Diretora da OTAHN, Ana Luisa Granja.
Como a Secretária-Geral, Marina Johas, lembra, ‘transmitir confiança é essencial, você se entende melhor, te entendem melhor e sua fala automaticamente melhora, te tornando um melhor delegado e fazendo com que as pessoas confiem mais nas ideias que você tenta passar.’ Como enfatizado pela Diretora do CSH, Carolina Calvet, ‘façam os debates acontecerem para ter grande impacto no comitê’, vale ressaltar a importância da oratória e a ‘falta de vergonha, ou pelo menos, não aparentar ter’.
‘Se você consegue persuadir um delegado para seu lado, você é um diplomata incrível; mas se você consegue fazer alguns compromissos em seus ideais para assim alcançar um acordo que também favoreça seu lado, você é um delegado extraordinário' - Giovanna Lopez, diretora do NIG.
2- Quais atitudes desagradam em um delegado? Como isso impacta no funcionamento do comitê?
A falta de respeito foi algo muito citado entre os entrevistados, já que o delegado acaba ‘perdendo o respeito de todas a sua volta, além de influenciar o seu poderio dentro do comitê e o sujeitando a não ter seus objetivos atingidos’, como afirma a Diretora da LEA, Klara. O desrespeito pode também, como citado por Pedro Henrique, Diretor da LEA, ‘acuar outros delegados que queiram se expressar’ .
O pior tipo de delegado para a Diretora do CSH, Alice, é aquele que menospreza a todos, aquele que se acha o dono da razão, desobedecendo a mesa ‘que é soberana’, como ela fez questão de ressaltar, além de interromper as pessoas, fazendo com que elas se sintam desconfortáveis em se expressar. ‘Gritar não é muito agradável’, avisa a Secretária Geral, Marina, ‘sua voz não ganha o debate, mas sim o seu discurso’.
De acordo com a Diretora Giovanna, do NIG, a falta de comprometimento e a insistência numa abordagem saturada dos assuntos faz o debate ‘girar em círculos’. Como o Diretor Antonio da OTAHN destaca: ‘um delegado pouco empenhado faz com que a harmonia das delegações seja quebrada e temas que seriam debatidos acabam sendo pouco falados no comitê’.
‘É o delegado que faz a delegação, não a delegação que faz o delegado’ - Manuela (Diretora LEA)
3- Por quê como um delegado deve posicionar seu país sem expressar opinião pessoal sobre o assunto?
Sem dúvida, uma das maiores dificuldades da Colegial para os delegados é conseguir se posicionar sem expressar suas opiniões pessoais, por isso, os diretores entrevistados foram bastante detalhados e cuidadosos em suas respostas. ‘É como incorporar um personagem’, é necessário que o delegado ‘abra mão de sua opinião pessoal’, afirmam Alice e Antonio, Diretores do CSH e da OTAHN, respectivamente.
Como diz o Diretor Pedro Henrique da LEA, é de absoluta importância ‘manter as ideias propostas pela sua delegação, porque caso contrário, a essência da Colegial, que consiste no embate entre países com pensamentos distintos e no desafio do próprio delegado de pensar sob outra ótica, é perdida’.
Marina, Secretária-Geral da ONU, complementa dizendo que ‘você não é você mesmo na Colegial.’ Ela destaca que ‘ter a habilidade de separar o pessoal do impessoal, as suas opiniões das opiniões do seu país, saber discernir o que você quer falar do que você deve falar é de extrema importância em diversas áreas da sua vida, não só na ONU’.
‘É muito mais trabalho ter que defender algo que não conhecemos e concordamos 100%, logo depende muito mais de como você fala do quanto você realmente concorda’ - Antonio (Diretor OTANH)
4- Como um delegado deve se posicionar sem criar polêmicas? E se ele desejar criar polêmicas, o que fazer?
‘Criar uma polêmica em um debate nem sempre é vantajoso’, avisa o Diretor da OTANH, Antonio, porém, vale advertir que ‘posicionar-se sem criar polêmicas não é necessariamente algo bom’, como alerta a Secretária Geral, Marina Johas. Isso evidencia que nenhum dos extremos é muito favorável, contudo, de acordo com a Diretora da OTANH, Ana Luisa, ‘sempre é bom dar uma apimentada na discussão’.
Se não for da intenção do delegado criar controvérsias durante o debate, é mais interessante ‘evitar embates diretos com países que discordam dele, optando por debater esses assuntos da maneira mais calma possível e às vezes até fora do comitê’, indica Carolina, Diretora do CSH. No entanto, caso seja do interesse do delegado criar polêmicas durante a discussão em seu comitê, é indispensável ‘seguir a política externa de seus país e em nenhum momento se contrariar, pois isso pode ser utilizado da pior forma possível contra você mesmo’, salienta a Diretora Klara da LEA.
Aprofundando um pouco mais em seu próprio comitê, a Diretora da LEA, Manuela Netto adverte que ‘o nosso debate geralmente inclui lados contrários, por exemplo, numa guerra temos um lado e temos o outro, na LEA, o feminismo ocidental e os tempos antigos orientais ali no Oriente Médio, então o delegado não criar polêmicas representando seu país é muito difícil’.
‘Se o delegado não quiser causá-las o primeiro passo é ele estudar sua política externa e não falar nada que na vida real o país definitivamente não diria, mas se o delegado quer causar polêmicas, uma boa ideia é atacar países com opiniões muito opostas a dele, seja por discursos ou por meio de documentos provisórios.’ - Carolina (Diretora CSH)
5- Qual o principal tópico que você gostaria que fosse abordado nesse comitê? Por quê esse tópico específico?
Referindo-se individualmente ao seu próprio comitê, os diretores da LEA relatam um pouco de como gostariam que fosse o desdobramento do debate, ‘o tópico que deve ter maior destaque, é a desigualdade de gêneros’, opina a Diretora Klara. ‘Todos os tópicos são interessantes’, mas se tivesse que escolher um, Pedro Henrique escolheria para debate a ‘ausência de liberdade de expressão’. O principal tópico que Manuela gostaria que fosse mencionado e que ela tem ‘certeza que vai render muitos debates, é a educação’, ela também indaga, ‘educação faz o mundo, ensina as gerações que vão mudar o mundo, logo, o que melhor para debatermos senão a educação igualitária para todos?’
Os delegados da OTAHN também posicionaram suas expectativas para seu comitê. O Diretor Antonio relata que gostaria que ‘os delegados discutissem sobre a polaridade das potências ocidentais e orientais’. A Diretora Ana Luisa conta que está curiosa e animada para ver ‘como os delegados irão debater o papel da OTANH nos conflitos internacionais e a questão dos refugiados’.
Na questão que será futuramente debatida pelo CSH, a Diretora Alice, está mais interessada em ver ‘o que eles vão fazer com as mortes, muita gente está morrendo! 800 mil pessoas morreram até o final do conflito, é importante que eles falem sobre isso!’. Carolina, do mesmo comitê menciona que algo muito interessante será debater se ‘o massacre de Ruanda foi um genocídio ou não, pois em 1994 muitas delegações ainda não tinham o reconhecido como tal’.
Sobre a reforma do CS, a Secretária Geral, Marina, expressa sua animação pelo desdobramento do debate no comitê da NIG e afirma que está mais ansiosa para ver como o NIG vai acontecer, pois ‘acredito que seja um comitê com um tema muito interessante, já que é um comitê sobre a própria ONU!’, comenta. Complementando, Giovanna do NIG aponta que ‘gostaria que falassem sobre como a ordem geopolítica será alterada caso a reforma do CS fosse efetiva’.
6- Como ex-delegado da ONU, que dica você gostaria de dar para quem fará esse comitê pela primeira vez? Conte um pouco da sua experiência pessoal.
Vemos que todos os anos, apesar de ser sempre incrível, a ONU causa ‘muita ansiedade e nervosismo por parte de muitos delegados’, como Klara, Diretora da LEA, muito bem coloca. Exatamente por isso, os diretores trouxeram ótimas dicas e palavras de apoio aos delegados de primeira viagem, e aos demais delegados, ‘tire dúvidas com a mesa’, ‘vá de cabeça nos debates, sem medo’, ‘fale com calma e pesquise sobre o tema, tudo irá dar certo’, ‘levem seus diretores, além de como mentores, como amigos, nós queremos ajudar vocês mais do que tudo!’, como foi recomendado pelos diretores Antonio, Giovanna e Manuela.
Falando de experiências pessoais, o Diretor Antonio relata que ‘minha primeira simulação foi como a União Soviética no comitê em inglês, então certamente eu já passei por muita ansiedade antes do comitê. Para os delegados de primeira viagem, calma. O desespero só leva a falhas atrás de falhas’, é importante ter a mente tranquila e preparada, pois, no final é sempre essencial lembrar-se que ‘são todos alunos ali’, conclui a Diretora Ana Luisa Granja.
‘Na minha primeira simulação eu não ficava confortável, então achei outra maneira da minha voz ser ouvida, seja por documentos provisórios, alianças com outras delegações, etc.’ - Alice (Diretora do CSH)
7- Por quê você gosta tanto da ONU e como você acha que ela será importante para os delegados desse ano?
Comum a todos os entrevistados, foi o sentimento de gratidão com a oportunidade de viver essa experiência, durante a conversa com a Secretária Geral, Marina, foi possível perceber que ela compartilhava o mesmo sentimento que seus colegas, que viveram ‘incríveis relações com pessoas que lá estavam’, ela também menciona que pôde experimentar ‘momentos muito felizes’.
A ONU ajudou a habilidade de debater de Klara florescer, além de ter ‘dado a chance de adquirir conhecimento diversos sobre os mais diferentes assuntos’. Como Antonio, que busca uma futura carreira artística, ressalta, todos os participantes aprendem muito sobre ‘interpretação de personagens, controle corporal e autocontrole’.
‘A experiência é incrível’, relata Manuela, ‘não é apenas o salto-alto, os horários ou ver os Estados Unidos da América envolvidos em uma debate acalorado, é também poder ver temas tão atuais retratados na nossa realidade, temas que muitas vezes nem havíamos ouvido falar’. Ela também ressalta que ‘a ONU não é apenas o certificado que irá te ajudar no currículo para a faculdade, ela é a própria porta de entrada no aprendizado para diversas faculdades (Relações Internacionais, Diplomacia Global, Direito Internacional...).’ Emocionada ela completa: ‘A ONU é o futuro!’
‘É difícil de explicar, a ONU muda a vida das pessoas, é sensacional, o evento mais esperado do ano inaciano, eu não tenho nem palavras para descrevê-la, no que ela me transformou, como me fez evoluir, crescer, amadurecer, melhorar como pessoa. As amizades que fiz… Conheci muitas pessoas por causa dessa experiência. A ONU é perfeita, não tenho outras palavras para descrever.’ - Alice (Diretora CSH)
8- O que você acha que os delegados irão aprender com a participação deles nessa ONU tão atípica feita a distância devido a pandemia do COVID-19? E você, o que espera viver e descobrir com essa experiência?
A expectativa para essa ONU tão exótica é grande, Klara, por exemplo, espera ‘aproveitar ao máximo esses últimos dias de simulação e criar laços que vão continuar para além da chamadas do meet’. O online traz vários benefícios e desafios, Ana destaca que os delegados precisam aprender mais do que nunca a ‘trabalhar em equipe em uma situação adversa’.
Um sentimento comum à todos os entrevistados foi de expectativa, eles demonstraram grande força de vontade em fazer com que essa XV edição seja ‘especial e inesquecível!’ Como ressaltou veemente Manuela, ‘O fato dela ser online não significa menos intensidade ou importância, inclusive, os temas deste ano vão ser bizarramente atuais’.
Além dessa experiência única, os alunos que participarão desta edição poderão mais facilmente quebrar barreiras como a da vergonha, afinal, como lembra Alice ‘se alguém fica muito nervoso falando para uma sala lotada, às vezes falar para uma tela torna a experiência mais confortável’.nOs alunos com toda a certeza descobrirão que são ‘muito mais capazes do que imaginam’, ressalta Giovanna (Diretora do NIG). Afinal, ‘quando se busca algo, sempre é possível conquistá-lo’, motiva Pedro Henrique (Diretor da LEA).
‘Não importa as adversidades, você consegue fazer o que você quiser, com as motivações certas, apesar do seu irmão gritando no fundo, da sua mãe batendo a porta, você vai conseguir prestar atenção no debate, vai conseguir seu certificado, vai conhecer pessoas novas e sua experiência vai ser tão incrível quanto uma presencial.’ - Marina (Secretária Geral)
Beatriz Silva
Sofia Raslan


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